Futuro sem véu

Conteúdo complementar à reportagem de capa da edição 67 da Revista Minas Faz Ciência sobre inteligência preditiva.

capa

ENTREVISTA COM THIAGO CARDOSO, CTO HEKIMA 

– Que tipo de soluções/benefícios a Hekima oferece a seus clientes? Quais os tipos de previsões podem ser feitas a partir de bancos de dados? Digo, quais áreas podem ser beneficiadas desse tipo de serviço?

A Hekima ajuda seus clientes a utilizar dados na tomada de decisões. A partir do acesso a dados internos ou externos às empresas, aplicamos técnicas de Inteligência Artificial para detectar e entender padrões relacionados às necessidades dos nossos clientes.

Tomar decisões assertivas e eficientes baseadas em dados não é privilégio de um área específica. Existem diversas aplicações dos mais diferentes tipos como: predição de demanda de produtos e de cancelamento de contratos, caracterização de hábitos de clientes e padrões de consumo, inferência do risco de pacientes médicos e até análise de imagens de jogos para melhoria do desempenho esportivo.

– Gostaria de saber um pouco mais sobre a metodologia de trabalho de vocês. Quais tecnologias e know-how são empregados no processo?

A Hekima desenvolve algoritmos para coleta, processamento, análise utilizando Inteligência Artificial e visualização de dados. Além disso, para viabilizar este tipo de análise em grandes volumes de dados, temos uma infraestrutura distribuída para processamento e armazenamento massivo de dados.

A Hekima utiliza algoritmos de Inteligência Artificial proprietários para explorar os dados e encontrar padrões. Estes padrões podem ser utilizados para nos ajudar a antecipar acontecimentos. Por exemplo, quando olhamos para um grande grupo de pessoas que frequentam uma academia, começamos a entender quais são os sinais que ocorrem antes do cancelamento da matrícula. Podemos acabar descobrindo que as pessoas com o maior risco de deixar a academia são aquelas que estão diminuindo sua frequência ou não estão seguindo uma rotina específica. Com o conhecimento destes padrões, podemos antecipar quais são as pessoas que apresentam maior risco de deixar a academia antes mesmo que isso aconteça. A academia então, poderia tentar uma ação preventiva, afinal, o que pode estar faltando é só um pouco de motivação.

– A metodologia de vocês é baseada na internet, mas existe como fazer esse tipo de trabalho sem o uso da internet? Quero dizer, essa possibilidade de previsão surgiu com a internet, ou não? Pode nos falar um pouco sobre isso?

A Hekima emprega diversos tipos de dados para elaboração dos modelos preditivos; inclusive (mas não restrito a) dados disponibilizados na Internet.

Sem dúvida, a Internet possibilitou que um grande volume de conteúdo fosse criado e armazenado. Dessa forma, mesmo empresas que ainda não possuem dados próprios conseguem tomar decisões baseadas em dados, por exemplo, extraindo informações sobre produtos e setores nas mídias sociais.

– De onde vêm os dados que a empresa usa para fazer previsões? Como vocês lidam com as dimensões éticas envolvidas no processo?

Os dados utilizados nas predições são de propriedade da empresa ou de fontes externas. Alguns exemplos de dados internos são respostas a formulários, imagens, textos e histórico de vendas. Por outro lado, os dados externos normalmente estão disponíveis publicamente como é o caso do Censo, IBGE e mídias sociais.

Na Hekima, privacidade e segurança são princípios básicos para o trabalho com dados. Isso se reflete em várias dimensões, desde o relacionamento com o cliente até etapas no nosso processo de desenvolvimento de soluções. Por exemplo, sempre que uma base de dados contém dados individuais, ela passa por um processo de anonimização dos dados. Todas as informações críticas são removidas ou substituídas por identificadores em que a relação não é  conhecida. Desta forma os métodos podem ser utilizados sem que para isso seja necessário expor dados sensíveis.

– O que vocês consideram o futuro da predição?

Hoje, métodos de predição já fazem parte do nosso dia a dia de forma ubíqua. Quando entramos no email temos previsões de emails prioritários e spam. Quando vamos responder a um email, o próprio programa nos sugere possíveis respostas. Quando vamos traduzir um texto, também estamos utilizando Inteligência Artificial. Carros autônomos dirigidos por computadores já estão nas ruas e já conseguimos reconhecer rostos automaticamente com a mesma assertividade que os próprios seres humanos.

Essa tendência continuará existindo e todos os negócios utilizarão Inteligência Artificial para resolver os mais diversos desafios. Apesar disso a combinação Homem / Máquina sempre será responsável pelos melhores resultados. Quando a automatização de uma tarefa começa a fazer parte do nosso dia a dia, podemos utilizar nosso tempo em tarefas em um maior nível de abstração, ou seja, passamos a trabalhar cada vez mais em problemas em que nossa criatividade tem o maior impacto. Pense no tempo que você gastava apenas para tirar o spam do seu Inbox. Este tempo agora é usando lendo seus emails reais e tomando decisões importantes.

– Como os celulares e internet das coisas contribuem hoje e no futuro?

Os celulares e outros devices contribuem para que a fronteira entre online e offline se torne cada vez menos nítida. Como utilizamos estes devices continuamente, estamos criando novas oportunidades para a coleta de informações relevantes sobre nossos hábitos. Uma geladeira inteligente conhecerá muito bem nossos hábitos de consumo.

Com isso, cada vez mais teremos serviços personalizados às nossas necessidades. Essa customização chegará ao ponto em que cada pessoa terá uma experiência completamente única.

Saiba mais:
Site Hekima
Facebook



ENTREVISTA COM JOANA ZILLER
Professora de Comunicação Social da UFMG, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Conexões Intermidiáticas do Centro de Convergência de Novas Mídias da UFMG

– De onde vêm os dados dos Big Data usados pelas empresas?

Há uma série de fontes, como empresas de cartão de crédito, de software e redes sociais online, entre outras.

– Os usuários fornecem esses dados ou não sabem que eles estão sendo coletados?

Sim, nós fornecemos os dados. Mas isso não significa que saibamos que eles estão sendo coletados, e, principalmente, que serão vendidos ou distribuídos de alguma forma. A maioria de nós não lê os termos de uso de softwares e mídias sociais e os contratos de cartões de crédito. Mesmo quando os lemos, temos dificuldade de entender o que significam as cláusulas, que são escritas de maneira genérica.

Assim, quando uma empresa diz “vamos usar seus dados para melhorar os nossos serviços”, podemos entender que ela vai pesquisar os erros e corrigi-los, mas também cabe aí que ela vai vender seus dados e reinvestir o dinheiro em infraestrutura, por exemplo.

– Quais dimensões éticas estão relacionadas ao uso dessas informações?

A principal delas diz respeito a um mapeamento pouco conhecido pelos usuários de seus hábitos. Isso inclui desde hábitos de consumo, até de localização, por exemplo – muitos aplicativos associam os dados de uso aos do GPS do celular. Ou seja, é possível registrar os trajetos usuais, o tempo que se passa em cada local, quando se altera uma rota usual etc. Há também softwares (de computadores e aparelhos móveis) que autorizamos a acionar nossa câmera, microfone… Ou seja, mesmo informações sobre atividades para as quais não usamos o computador ou o celular estão sendo registradas por meio deles.

– Como os usuários podem se precaver e se proteger dessa exposição?

Discutir sobre nossa privacidade e exigir das empresas e dos governos uma maior transparência é um caminho viável, tendo em vista que não vamos abrir mão das comodidades advindas do uso de tais serviços e produtos.

– Os bancos de dados podem ser usados para várias questões benéficas à sociedade. Como seria possível usar esses dados para melhorias comuns sem desrespeitar o usuário?

O mais importante é fazer um uso crítico desses dados, evitar uma leitura totalizante.

Saiba mais:
Currículo Lattes de Joana Ziller
Perfil no Academia.edu


ENTREVISTA COM POLYANA INÁCIO – PESQUISADORA EM COMUNICAÇÃO SOCIAL 

– As predições pela internet funcionam a partir de bancos de dados que os usuários deixam na rede certo? Como isso acontece?

Um volume extenso de dados é gerado a partir do uso que fazemos das tecnologias para nos comunicar. Sites de redes sociais, aplicativos e outros sistemas informacionais utilizam os rastros cotidianos de nossas ações. Por exemplo, somos observados quando utilizamos o cartão de crédito ou celulares, tablets, computadores para nos informar, interagir com as pessoas ou compartilhar conteúdo.

Como os celulares tem interferido nesse processo? E como a Internet das Coisas (IoT, da sigla em inglês) entra nessa história?

Os celulares que inicialmente atendiam à demanda de telefonia móvel, hoje transformaram-se em objetos “inteligentes”, “smarts”. Ou seja, são minicomputadores com boa capacidade de processamento e armazenamento de dados, acessam à internet, produzem imagens. Estas são características que também se relacionadas às tecnologias da Internet das Coisas. Qualquer objeto ao nosso redor poderá receber sensores ou etiquetas de radio frequência (RFID) para monitorar ambientes, ações e enviar dados. Assim como os celulares já fazem.

 Os dados que geramos com a IoT são diferentes daqueles deixados na rede? Em que medida?

Com a previsão de que objetos que antes não se conectavam entre si ou à internet, passem a fazê-lo, novos padrões de dados surgirão certamente. Os volumes de dados também se multiplicarão trazendo questões éticas e de segurança à tona.

– O que os usuários precisam ter em mente ao compartilhar seus dados nesses lugares/objetos?

É importante refletir sobre o que compartilhamos/acessamos na internet. O autor Zygmunt Bauman diz que os inventos contemporâneos da tecnologia nos transformam em “hyperlinks humanos”. Nós sabemos que, às vezes, torna-se complicado não aderir ao chamado das atualizações tecnológicas. Neste caso, uma alternativa é medir os custos destas escolhas. Eles não apenas financeiros, e sim tornam-se parte de nossa vida como um todo. Por exemplo, com a chegada da Internet das Coisas seremos mais monitorados e portanto mais suscetíveis à sugestões de produtos, conteúdos e estilos de vida. Muitas destas recomendações surgem de dados coletados quando expomos nossos hábitos diários, intimidade e nossa localização no mundo.

Saiba mais sobre Internet das Coisas